Nos
últimos anos da segunda década do século 21, as sociedades humanas enfrentavam
um grave problema. A evolução da internet trouxe consigo um dilúvio de
informação afogando milhões de pessoas nas mais variadíssimas ideias e teorias,
e de milhares de factos disponíveis à distância de um clique. Como consequência
assistiu-se a uma crescente fragmentação cultural e uma crise de identidade que
ameaçava conduzir as pessoas para uma espécie de vácuo intelectual. Apesar dos
esforços feitos na edificação de novas ameaças como o reaparecimento de
ameaçadores movimentos de extrema-direita, as pessoas pareciam andar à deriva
sem encontrarem um poiso ideológico que as situasse em relação ao “outro”.
Em
Dezembro de 2019, numa pequena província chinesa com o nome de Wuhan, um novo
coronavirus chamado SARS-CoV-2, começava a infectar as pessoas com uma doença
respiratória a que se deu o nome de Covid-19. Nascia a esperança para milhões
de pessoas que se sentiam sozinhas, ignoradas e sem rumo nas redes sociais.
Da
pequena província chinesa para o resto do mundo foi um salto, e rapidamente o
pequeno surto se transformou numa pandemia. Os primeiros a reconhecerem nisto
um potencial para um renascimento foram os meios de comunicação. Até então num
estado de perigosa estagnação com tendência decadente, o novo vírus trouxe uma
saída do marasmo. Com o uso inteligente de uma linguagem catastrofista e de um
recurso constante e desmedido a números gordos e descontextualizados, os
noticiários começaram a ultrapassar telenovelas e reality shows em número de espectadores. Uma vez apanhado o peixe
no anzol, nunca mais os meios de comunicação largaram a cana. Muitas vezes
repetindo a mesma notícia durante dias com pequenas modificações, e reservando
quase integralmente o espaço noticioso com o tema Covid, os media operaram uma
verdadeira revolução, com uma narrativa sólida apoiada no medo e impermeável a
qualquer espécie de contraditório que, a partir de certa altura, se passou a
classificar meramente de desinformação – o termo mais diplomático – ou pura e
simplesmente de teoria de conspiração tresloucada, e os seus proponentes de
loucos ou, até mesmo, criminosos.
O
fenómeno seguinte é ainda mais interessante e significativo. Falava no início
desta dissertação da fragmentação e crise de identidade, e foi aí que se operou
a derradeira transformação. A confusão, os dados contraditórios, e a
indefinição que se formou desde o início entre as autoridades de saúde, e que
acabaram por culminar numa atuação governamental muitas vezes desproporcional,
levou à definição de dois lados opostos a que se convencionou chamar de
covidistas e negacionistas. Finalmente as pessoas conseguiam alcançar a
definição que tanto ansiavam. O fim da fragmentação. Finalmente, as pessoas
tinham um alvo específico para combater, insultar e descarregar a frustração de
uma existência vulgar. Tudo isso enfiando em dois pacotes muito bem
embrulhados, pessoas aparentemente com as mesmas opiniões e objetivos.
De
um lado, os covidistas, designação que pode induzir erradamente à ideia de que
se tratam de amantes do Covid, mas criada como alusão a uma espécie de
obssessão com o virus, onde se misturam pessoas com uma preocupação legítima
com a saúde pública, pessoas amedrontadas preocupadas com a sua saúde
acima de tudo, pessoas que não admitem a existência de pessoas que ponham tudo
isto em causa e, apesar da sua existência ser negada, pessoas com um interesse
estratégico na perpetuação da narrativa oficial.
Do
lado oposto estão os chamados negacionistas, termo de premeditado mau gosto que
cria, inevitavelmente, uma associação psicológica com os indivíduos que negam o
genocídio de seis milhões de judeus nos campos de concentração nazis. O termo,
para além de ofensivo, é impreciso, visto que só um pequeníssimo número de
indivíduos, em geral com alguns problemas mentais, negam a existência do virus.
A generalidade dos chamados negacionistas são, na verdade, questionadores. Uns
colocam dúvidas quanto à efectividade das medidas impostas, outros questionam a
legalidade dessas mesmas medidas, outros põe em causa a dimensão do problema e
a desproporcionalidade na atuação das autoridades. Acima de tudo, questionam a
narrativa oficial, e a verdade, qualquer que seja o ângulo analisado e qualquer
que seja a justificação, é que existem inegavelmente atropelos à legalidade, à
constituição, e aos direitos dos cidadãos.
Enquanto
estes dois lados se digladiam tão ferozmente, um novo paradigma civilizacional
se impõe sem qualquer resistência dos povos: o controle digital dos movimentos
dos indivíduos, atropelos descarados à constituição justificados pela luta
contra o Covid, e a destruição das pequenas e médias empresas e consequente
concentração do poder financeiro num pequeno número de grupos económicos,
processo que agrava colossalmente as desigualdades e levará gradualmente à
destruição da classe média, até ao ponto em que o povo se verá impotente para
reinvindicar os seus direitos e será obrigado a aceitar as condições que lhe
serão impostas pela classe dominante.
O
dia chegará em que os nossos netos e bisnetos e toda a futura geração olhará
para nós com ódio e desprezo por termos permitido que o medo nos dominasse e
nos levasse a hipotecar o futuro das suas existências e transformado este mundo
num pântano social, político e ecológico.
Entretanto
continuemos a insultar-nos uns aos outros nas redes sociais e a acreditar
piamente em tudo o que os mídia nos põe à frente.
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