quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Finalmente Frente a Frente

 

         Nos últimos anos da segunda década do século 21, as sociedades humanas enfrentavam um grave problema. A evolução da internet trouxe consigo um dilúvio de informação afogando milhões de pessoas nas mais variadíssimas ideias e teorias, e de milhares de factos disponíveis à distância de um clique. Como consequência assistiu-se a uma crescente fragmentação cultural e uma crise de identidade que ameaçava conduzir as pessoas para uma espécie de vácuo intelectual. Apesar dos esforços feitos na edificação de novas ameaças como o reaparecimento de ameaçadores movimentos de extrema-direita, as pessoas pareciam andar à deriva sem encontrarem um poiso ideológico que as situasse em relação ao “outro”.

         Em Dezembro de 2019, numa pequena província chinesa com o nome de Wuhan, um novo coronavirus chamado SARS-CoV-2, começava a infectar as pessoas com uma doença respiratória a que se deu o nome de Covid-19. Nascia a esperança para milhões de pessoas que se sentiam sozinhas, ignoradas e sem rumo nas redes sociais.

         Da pequena província chinesa para o resto do mundo foi um salto, e rapidamente o pequeno surto se transformou numa pandemia. Os primeiros a reconhecerem nisto um potencial para um renascimento foram os meios de comunicação. Até então num estado de perigosa estagnação com tendência decadente, o novo vírus trouxe uma saída do marasmo. Com o uso inteligente de uma linguagem catastrofista e de um recurso constante e desmedido a números gordos e descontextualizados, os noticiários começaram a ultrapassar telenovelas e reality shows em número de espectadores. Uma vez apanhado o peixe no anzol, nunca mais os meios de comunicação largaram a cana. Muitas vezes repetindo a mesma notícia durante dias com pequenas modificações, e reservando quase integralmente o espaço noticioso com o tema Covid, os media operaram uma verdadeira revolução, com uma narrativa sólida apoiada no medo e impermeável a qualquer espécie de contraditório que, a partir de certa altura, se passou a classificar meramente de desinformação – o termo mais diplomático – ou pura e simplesmente de teoria de conspiração tresloucada, e os seus proponentes de loucos ou, até mesmo, criminosos.

         O fenómeno seguinte é ainda mais interessante e significativo. Falava no início desta dissertação da fragmentação e crise de identidade, e foi aí que se operou a derradeira transformação. A confusão, os dados contraditórios, e a indefinição que se formou desde o início entre as autoridades de saúde, e que acabaram por culminar numa atuação governamental muitas vezes desproporcional, levou à definição de dois lados opostos a que se convencionou chamar de covidistas e negacionistas. Finalmente as pessoas conseguiam alcançar a definição que tanto ansiavam. O fim da fragmentação. Finalmente, as pessoas tinham um alvo específico para combater, insultar e descarregar a frustração de uma existência vulgar. Tudo isso enfiando em dois pacotes muito bem embrulhados, pessoas aparentemente com as mesmas opiniões e objetivos.

         De um lado, os covidistas, designação que pode induzir erradamente à ideia de que se tratam de amantes do Covid, mas criada como alusão a uma espécie de obssessão com o virus, onde se misturam pessoas com uma preocupação legítima com a saúde pública, pessoas amedrontadas preocupadas com a sua saúde acima de tudo, pessoas que não admitem a existência de pessoas que ponham tudo isto em causa e, apesar da sua existência ser negada, pessoas com um interesse estratégico na perpetuação da narrativa oficial.

         Do lado oposto estão os chamados negacionistas, termo de premeditado mau gosto que cria, inevitavelmente, uma associação psicológica com os indivíduos que negam o genocídio de seis milhões de judeus nos campos de concentração nazis. O termo, para além de ofensivo, é impreciso, visto que só um pequeníssimo número de indivíduos, em geral com alguns problemas mentais, negam a existência do virus. A generalidade dos chamados negacionistas são, na verdade, questionadores. Uns colocam dúvidas quanto à efectividade das medidas impostas, outros questionam a legalidade dessas mesmas medidas, outros põe em causa a dimensão do problema e a desproporcionalidade na atuação das autoridades. Acima de tudo, questionam a narrativa oficial, e a verdade, qualquer que seja o ângulo analisado e qualquer que seja a justificação, é que existem inegavelmente atropelos à legalidade, à constituição, e aos direitos dos cidadãos.

         Enquanto estes dois lados se digladiam tão ferozmente, um novo paradigma civilizacional se impõe sem qualquer resistência dos povos: o controle digital dos movimentos dos indivíduos, atropelos descarados à constituição justificados pela luta contra o Covid, e a destruição das pequenas e médias empresas e consequente concentração do poder financeiro num pequeno número de grupos económicos, processo que agrava colossalmente as desigualdades e levará gradualmente à destruição da classe média, até ao ponto em que o povo se verá impotente para reinvindicar os seus direitos e será obrigado a aceitar as condições que lhe serão impostas pela classe dominante.

         O dia chegará em que os nossos netos e bisnetos e toda a futura geração olhará para nós com ódio e desprezo por termos permitido que o medo nos dominasse e nos levasse a hipotecar o futuro das suas existências e transformado este mundo num pântano social, político e ecológico.

         Entretanto continuemos a insultar-nos uns aos outros nas redes sociais e a acreditar piamente em tudo o que os mídia nos põe à frente.

terça-feira, 6 de março de 2018

O Estranho Caso do Plágio do Diogo Piçarra


Não sou, nem de perto nem de longe, um apreciador da música do Diogo Piçarra mas esta polémica acerca do suposto plágio dele da “famosa” música do “famosissimo” Padre Walter é uma clara injustiça e aquilo que em bom português se chama de uma valente treta.
         É inegável, ao compararmos as duas músicas, a incrível semelhança entre elas. Poder-se-ia dizer que se trata da mesma música com letras diferentes. Impõem-se, no entanto, as seguintes questões:
1)   Alguém acredita honestamente que o Diogo Piçarra soubesse sequer da existência de um artista chamado Padre Walter?
2)   Com tanta música boa para plagiar ele iria plagiar uma música tão medíocre como esta?
3)   Ele corresse um risco tão despropositado como este numa competição tão escrutinada como o Festival da Canção e numa altura em que se fala tanto da questão por causa da recente polémica com o Tony Carreira?
Eu, pessoalmente, não concebo tamanho erro por parte de um artista com a notoriedade do Diogo Piçarra e com a poderosa máquina que o sustenta em termos de produção. O que se trata aqui, na minha opinião, é de apenas uma infeliz coincidência passível de acontecer com qualquer artista quando se trata de uma música tão simplista em termos melódicos e com arranjos tão minimalistas. Temos de ter em conta a enorme quantidade de músicas feitas em todo o mundo e durante todos estes anos, pelo que não é de todo difícil repetir melodias sem querer.
Quando se fala de plágio é preciso ter-se em conta a questão contextual. Como disse antes, custa-me acreditar que o Diogo Piçarra soubesse sequer da existência do Padre Walter. Agora, atentemos antes ao seguinte exemplo: The Cure com a música “Just Like Heaven” e os Rádio Macau com a música “O Anzol”. Aqui podemos falar naturalmente de plágio. Quando os Rádio Macau escreveram “O Anzol” de certeza que já tinham ouvido o tema dos The Cure. Ainda para mais é notória a influência dos The Cure no som dos Rádio Macau. Esta é a questão contextual a que me referia. Isto é o que se pode verdadeiramente chamar um plágio. As músicas não são iguais mas a progressão melódica, o ritmo, a ambiência tornam indiscutível a semelhança entre as duas músicas. No caso do Diogo Piçarra, existindo alguma intencionalidade, nem poderíamos chamar aquilo de plágio mas sim de cópia.